Como sair do vermelho: passo a passo para organizar as contas e voltar a respirar

Para sair do vermelho, você precisa fazer três coisas, nessa ordem: descobrir exatamente quanto deve e quanto entra, separar o que é essencial do que pode esperar e, só então, decidir qual dívida atacar primeiro. Pular direto para “pagar tudo o que der” é o erro mais comum e costuma terminar em mais juros, não em menos.

Neste guia, você vai ver o passo a passo completo, um orçamento de exemplo com os números fechados (para copiar a lógica, não os valores), o que fazer quando a sobra do mês é zero e o que muda se o seu nome já está negativado.

O que fazer primeiro: o passo a passo

Não existe truque que tire alguém do vermelho de um dia para o outro, mas existe uma sequência que funciona. Os seis passos abaixo seguem a ordem em que as decisões precisam ser tomadas, porque cada um depende do anterior.

1. Liste tudo o que você deve e tudo o que entra

Pegue uma folha, uma planilha ou o bloco de notas do celular e escreva cada dívida com quatro informações: quem é o credor, quanto falta pagar, quanto é a parcela e se está em dia ou atrasada. Faça o mesmo com a renda: salário líquido, o que cai de bico, pensão, qualquer entrada que se repita.

Sim, é desconfortável. Muita gente adia esse passo porque tem medo do tamanho do número. Só que o número existe com ou sem papel, e é ele que vai permitir qualquer decisão a partir daqui. Confira também os extratos dos últimos dois ou três meses para não esquecer assinaturas, parcelas de compras e débitos automáticos.

2. Separe o essencial do que pode esperar

Essencial é o que, se parar de pagar, quebra a sua rotina ou a sua segurança: moradia, comida, água, luz, transporte para o trabalho, remédios e escola dos filhos. Todo o resto entra na coluna do “pode esperar”: delivery, streaming, roupa, passeio, compras parceladas novas.

O objetivo não é viver sem lazer para sempre. É ter, por um período, um orçamento enxuto o bastante para sobrar dinheiro e atacar as dívidas. Quando você quiser um modelo para organizar essa divisão, vale ver como montar um orçamento pessoal do zero.

3. Descubra quanto sobra de verdade

A conta é simples: renda líquida, menos gastos essenciais, menos as parcelas das dívidas que você precisa manter em dia. O que sobrar é o seu “dinheiro de ataque”. Se der negativo, você está pagando contas com mais dívida, e esse é o sinal de que o foco inicial tem que ser reduzir gastos ou aumentar renda, antes de qualquer estratégia de quitação.

4. Defina a ordem de pagamento das dívidas

Aqui entra a regra que mais faz diferença: priorize as dívidas com juros mais altos, e não necessariamente as de maior valor. O cartão no rotativo e o cheque especial costumam estar no topo da lista, porque os juros crescem rápido e a bola de neve aparece em poucos meses. Se quiser entender como isso funciona, veja como o crédito rotativo e o cheque especial cobram por você.

Para saber quanto cada tipo de crédito está custando hoje, consulte as taxas médias por modalidade no portal do Banco Central. Compare com as taxas dos seus contratos: o que estiver bem acima da média merece prioridade, e é também o melhor candidato a renegociação.

A ordem prática fica assim: 1) dívidas essenciais que podem gerar corte de serviço ou perda de bem; 2) crédito rotativo e cheque especial; 3) empréstimos e financiamentos com juros altos; 4) o restante, do menor para o maior saldo.

5. Corte gastos que não doem tanto

Antes de cortar o que faz falta, procure o que você nem percebe que gasta: assinaturas esquecidas, serviços duplicados, tarifas bancárias que dá para eliminar trocando de pacote, compras por impulso feitas no aplicativo de comida. Em geral, é aí que está a primeira folga do orçamento, sem mexer no mercado nem na conta de luz.

Depois disso, olhe para os grandes grupos: moradia, transporte e alimentação. Um corte pequeno em cada um costuma render mais do que cortar tudo de uma vez em uma única categoria, e é mais fácil de sustentar por meses.

6. Negocie o que não cabe no orçamento

Se, depois dos cortes, uma dívida ainda não cabe no que sobra, é hora de negociar, não de empurrar. Quem negocia costuma conseguir desconto nos juros e na multa, e a parcela passa a caber no mês. Veja como negociar dívidas com desconto e quais cuidados tomar antes de aceitar uma proposta.

Uma regra de ouro: só feche um acordo se a parcela couber no orçamento que você montou nos passos anteriores. Um acordo que você não consegue pagar vira dívida nova com o mesmo problema, só que com mais um atraso no histórico.

Exemplo de orçamento: como a conta fecha

Os valores abaixo são hipotéticos, criados só para mostrar a lógica. Troque pelos seus números.

Imagine alguém com renda líquida de R$ 3.200 por mês, uma fatura de cartão de R$ 2.800 em atraso, R$ 600 usados no cheque especial e um empréstimo com parcela de R$ 280.

ItemValor mensal
Renda líquidaR$ 3.200
Moradia (aluguel e condomínio)R$ 1.100
MercadoR$ 700
TransporteR$ 300
Contas de água, luz e internetR$ 250
Parcela do empréstimoR$ 280
Sobra para atacar dívidasR$ 570

A conta: R$ 3.200 menos R$ 2.350 de essenciais e menos R$ 280 de parcela dá R$ 570. Se essa pessoa cortar R$ 150 em assinaturas e delivery, a sobra sobe para R$ 720.

Pela regra do passo 4, o cheque especial vem primeiro: R$ 600 saem no primeiro mês e ainda sobram R$ 120. Do segundo mês em diante, os R$ 720 vão para a fatura de R$ 2.800, o que levaria cerca de quatro meses, sem contar os juros que continuariam correndo. Esse detalhe é justamente o que torna a renegociação interessante: com um desconto nos juros e na multa, o saldo cai e o prazo encurta.

Como sair do vermelho ganhando pouco

Dá para sair, mas o caminho muda: com renda baixa, cortar gastos tem limite, porque boa parte do orçamento já é essencial. Por isso, o esforço precisa ir em duas frentes ao mesmo tempo: reduzir o custo da dívida (negociando juros, trocando dívida cara por mais barata quando for realmente mais barata) e aumentar a entrada, mesmo que com pouco.

Qualquer valor extra, por menor que seja, deve ir inteiro para a dívida de juros mais altos. Se você quer ver estratégias para esse cenário, leia como pagar dívidas altas com pouco dinheiro. E se precisar de uma entrada extra, há ideias de renda extra que cabem em quem já tem pouco tempo livre.

E se a sobra do mês é zero ou negativa?

Quando o orçamento não fecha nem depois de todos os cortes possíveis, continuar pagando “o que dá” geralmente piora a situação. Nesse caso, o primeiro passo é parar de criar dívida nova, sobretudo no cartão e no cheque especial, e proteger o essencial: moradia, comida, água e luz vêm antes de qualquer credor.

O passo seguinte é procurar os credores antes de atrasar mais, explicar sua situação e pedir uma proposta com parcela menor. Credores costumam preferir receber algo a não receber nada, e uma proposta feita cedo tende a ser melhor do que uma feita depois de meses de atraso.

Não tenho como pagar minhas dívidas: e agora?

Se a soma das parcelas é maior do que tudo o que você consegue pagar, você pode estar em uma situação de superendividamento. A lei do superendividamento criou um caminho de renegociação com os credores em conjunto, para quem não consegue pagar o conjunto das dívidas sem comprometer o básico. Para entender o que ela prevê, leia o artigo sobre a lei do superendividamento.

Para saber como acessar esse caminho onde você mora, procure o Procon ou a Defensoria Pública da sua cidade. Eles podem orientar sobre os documentos necessários e os passos seguintes.

O que muda se o seu nome já está negativado?

Estar negativado não impede você de se organizar, e também não impede de negociar. A diferença é que, além do orçamento, existe um objetivo adicional: regularizar a situação para voltar a ter acesso a crédito em condições melhores. Por isso, ao definir a ordem das dívidas, vale incluir o impacto de cada uma no seu nome, além dos juros.

Dívidas negativadas costumam permitir acordos com descontos maiores justamente porque já estão em atraso. Se você quer comparar caminhos para regularizar, a Acerto reúne propostas de vários credores em um só lugar, o que ajuda a ver o desconto e a parcela antes de decidir.

Planilha para sair do vermelho: o que ela precisa ter

Você não precisa de uma planilha sofisticada, e sim de uma que você realmente abra toda semana. O mínimo útil são três abas: uma com a renda do mês, outra com os gastos separados em essenciais e não essenciais, e uma terceira só com as dívidas (credor, saldo, parcela, taxa de juros e situação).

Um detalhe que faz diferença: inclua uma coluna com a data do próximo vencimento de cada dívida. Assim você não perde prazo e evita multa por esquecimento, que é uma das formas mais bobas de aumentar o que você deve.

Como não voltar para o vermelho

Sair do vermelho é uma conquista; ficar fora dele é outro trabalho. Três hábitos ajudam mais do que qualquer promessa de “controle total”: manter uma reserva de emergência, ainda que pequena no começo, para que um imprevisto não vire dívida; revisar o orçamento uma vez por mês, com a mesma lista do passo 1; e evitar parcelar compras que você não conseguiria pagar à vista em dois ou três meses.

Também ajuda criar uma regra pessoal para o cartão: se a fatura do mês passado não foi paga integralmente, o cartão fica guardado até ela ser. É uma regra simples, que corta o rotativo pela raiz.

Se, depois de montar o orçamento, ainda sobrar uma dívida que não cabe no mês, vale comparar caminhos de negociação antes de decidir. Veja como negociar suas dívidas com a Acerto e entenda as opções, com calma, sem compromisso.

Summary

Roberta Firmino

Formada em Comunicação Social – Jornalismo, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e com mais de 7 anos de experiência com conteúdo para web. Escrevo para ajudar brasileiros a saírem das dívidas e a tomarem decisões financeiras mais conscientes.

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